Agustín Barrios Mangoré – uma história da América

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Ao ouvir Agustín Barrios sentimos uma energia que supera o tempo, espaço, história.

Ele compôs em estilo romântico no século XX…

Mas o que significa isso? Ele seguiu seu próprio caminho aberto literalmente com suas mãos. Como canta Silvio Rodriguez: “El sueño se hace a mano y sin permiso…”

Um menino nascido em uma pequena província afastada, de um país recentemente devastado por uma guerra imperialista brutal, que dividiu pedaços de seu território entre Brasil e Argentina, dizimou 60% da população, matando ou tornando-os escravos e praticamente 80% dos homens, sendo eles adultos ou crianças. Marcado pelo sangue guarani que lhe dá o tom da pele, os traços fortes, a baixa estatura e o olhar longínquo de quem procura o que não está em nenhum horizonte dessa terra.

O que é romantismo ou modernismo ou dodecafonismo ou qualquer ismo para figuras assim?

Desenvolveu técnicas, superou limites e distâncias e levou o violão e a música erudita a lugares que nenhum outro instrumentista pôde imaginar.

Tive a sorte e a honra de participar, ainda que modestamente de uma pesquisa sobre sua vida.

Richard “Rico” Stover (1945) americano, violonista, músico, bacharel em Ethnomusicologia Latino Americana (que nome!) teve contato com a música de Barrios pela primeira vez em 1962 quando passa um tempo estudando na Costa Rica.

Em 1976 publica The Guitar Works of Agustín Barrios Mangoré (Belwin Mills) em 4 volumes.

Em 1978 John Williams lança seu disco onde toca só Barrios e faz furor aumentando a procura e reconhecimento de seus trabalhos.

Em 1980 Stover e Morris Mizrahi lançam pela El Maestro Records um LP duplo com gravações do próprio Barrios e uma biografia com fotos.

capa do LP

capa do LP

Belissima ilustração da artista Diane Goode para capa do LP

Aí começa o projeto do livro sobre a vida, obra, tempo, amigos e tudo de Barrios. Stover vai a cada um dos lugares por onde passou, as pessoas que o conheceram, as casas onde morou, etc. E vem ao Brasil, país onde Barrios morou e fez muitos concertos e músicas. Seu material para pesquisa (gravador, câmaras, etc) foi todo perdido pela companhia aérea (Aeroliñas Paraguaias!).

Everton Gloeden e Stover

Everton Gloeden e Stover

Esta foto eu tirei pela ironia do cartaz: violão em 3 meses. E nós estudando tanto tempo! O Everton era meu professor na época.

Conheci o Stover no Grande Ronoel Simões que o ajudou de maneira maravilhosa na pesquisa e pude também acompanhá-los em algumas entrevistas para fotografar pois já havia trabalhado como assistente de foto e tinha uma boa câmera Cannon.

Stover e Ronoel Simoes

Stover e Ronoel Simoes

Foi incrível saber e ver tanta coisa sobre esse músico, de sua vida, ligada à própria desgraça de um tempo e lugar, que afinal é o nosso também.

É sempre mais fácil para quem nasce no lugar certo, no tempo certo e com a cara certa.

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Agustín Barrios Mangoré – biografia

1885 – 1944

Agustín Barrios nasceu em San Juan Bautista de las Misiones, Paraguay.

Filho de Doroteo Barrios (Corientes – Argentina) e Martina Ferreira (Humaitá – Paraguai), cresceu em uma família que apreciava a cultura e artes, possuíam uma boa biblioteca, uma raridade nessa isolada área de Misiones, e todos os 7 irmãos tocavam algum instrumento.

Já com 7 anos Agustín podia tocar acordes e pequenas melodias no violão.

Aos 13 vai para Asunción e tem aulas com Gustavo Sosa Escalada. Seu próximo passo foi ganhar uma bolsa para o Instituto Musical Paraguaio onde estuda os métodos clássicos de Aguado e Sor, bem como peças de Giuliani, Parga, Arcas, Viñas e Tárrega.

Segue estudando, começa a dar aulas e concertos e aos 23 já é conhecido no Paraguai como virtuoso instrumentista, compositor e arranjador.

Em 1910 Barrios deixa o Paraguai e só retornará 12 anos depois.

Começa sua saga de concertos. Digo saga pois foram poucos instrumentistas que tocaram tanto e em tantos lugares e para tantas distintas platéias como ele. Primeiro por toda Argentina, Chile e Uruguai para onde se muda em 1912.

Em 1916 Barrios vem para o Brasil. Vive primeiramente em São Paulo (Cambuci). No Rio tem contato com Villa-lobos e os choros e João Pernambuco e outros violonistas da época.

Rio de Janeiro - 1929

Rio de Janeiro – 1929

da direita: João Pernambuco, Barrios e Quincas Laranjeira

Aqui no Brasil não há lugar onde não tenha tocado. Todo norte, nordeste, centro e sul do país, lugares onde não se tem notícia de outros músicos, ainda há pouco tempo atrás havia testemunhas de seus incríveis recitais.

Ele foi um pioneiro Ibero americano que nunca restringiu sua atuação às áreas urbanas e levou seu trabalho, sua alma e concertos formais de violão para locais nunca antes visitados. Chegava a fazer 2 recitais por dia e geralmente a estrutura de seus programas era dividida em 3 partes:

1ª – Composições próprias

2ª – Clássicos (transcrições de peças de compositores famosos de outros instrumentos)

3ª – Uma mistura de composições originais para violão.

Aqui no Brasil, por volta de 1930, Barrios começa a se apresentar como “Chefe Nitsuga Mangoré – o Paganini do violão das selvas do Paraguai.”

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Dizia ter recebido o segredo do violão de Tupã, o supremo espírito e protetor de seu povo. Vestia-se como um índio (ou o que acreditava ser um), fazia um discurso sobre sua alma guarani e tocava suas músicas assim como as de Beethoven, Bach, Carulli, Sor, etc. Com esse show, se foi pela América afora. As platéias aqui não eram como as platéias européias, acostumadas a ouvir concertos de instrumentistas. Essa forma de se apresentar, criando esse personagem, atraia um grande público nada sofisticado e completamente ignorante com relação a esse tipo de repertório e que de outra forma nunca se interessaria por sua música.

E Barrios segue seu caminho tocando na Venezuela, Colômbia, Panamá, Costa Rica, El Salvador, Cuba, Nicarágua, Honduras, Guatemala, México.

Em 1934 embarca para Europa onde toca em Bruxelas no Real Conservatório de Música.

Vai a Berlim onde passa 15 meses e aparece pouco em público mas trabalha tocando em rádios.

Vai a Espanha onde também dá concertos. Logo explode a guerra civil espanhola e toda onda fascista, nacionalista, raça pura e logo a segunda guerra mundial.

Retorna a América em 1936. Em 1938 começa a não poder seguir com uma carreira tão intensa por apresentar problemas do coração que vão se tornando cada vez mais graves até sua morte em 1944.

San Jose, 1939

San Jose, 1939

Barrios com Francisco Salazar, amigo e protetor de seus últimos anos. A jovem ao seu lado é Julia Martinez a quem Barrios compõe a famosa barcarola Julia Florida.

Passa seus últimos anos em El Salvador onde tem um círculo de alunos e ainda cria muitas novas peças, algumas refletindo suas premissas didáticas:

Estudio para ambas manos

Estudio del ligado

Estudio en arpegio

Escala y preludio…

“Atestado de óbito nº 06393003 da municipalidade de San Salvador…Barrios morre de insuficiência Cardíaca às 10 horas de hoje…datada de 07 de agosto de 1944.”

Aqui, John Williams, ao vivo, ao ar livre e grande platéia. Esta é a última composição de Barrios.


Leia Six Silver Moonbeams – The life and Times of Agustín Barrios Mangoré by Richard D.Stover – 1992 Querico Publications

Ouça Violão com Fábio Zanon

Informe-se sobre a Guerra do Paraguai – Triplice Aliança

Leia As Veias Abertas da América Latina – Eduardo Galeano

Veja a nota Paraguaia em homenagem a Agustín Barrios

5 comentários sobre “Agustín Barrios Mangoré – uma história da América

  1. Tienen que leer la primera biografia hecha en el Paraguay antes que Stover de Bacón Duarte Prado, “Un Genio Insular”.

  2. Se debe leer la primera biografía hecha en Paraguay por un paraguayo en el año 1985 llamado Bacón Duarte Prado, el libro se llama “Un Genio Insular”

  3. Holla Lorena, Gracias por su informacion. Barrios es un musico genial e poco conocido.
    Hasta, un abraso
    Norma

  4. I design this LP cover for Morris in 1980, 37 years ago, if somebody have one of this lp cover would you please e mail it to me?

  5. Nunca habia escuchado un virtuoso de la guitarra, En 1980 tuve el privilegio de duseñar la cuvierta de un disco LP en Winnetka, California USA, me gustaría tener una imagen completa de ese dizco.

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