Uma sexta feira muito triste.

“Não sei se o leitor é atreito a estas coisas. Por exemplo: vai descansadamente pela rua fora, a olhar para quem passa ou não reparando em ninguém e de repente, ao virar de uma esquina, sem aviso nem prévia suspeita, descobre uma verdade fundamental, uma nova lei da natureza, a explicação final dos destinos, a quadratura do círculo, o moto-continuo. Isto passa-se em um segundo fulgurante, findo o qual volta à sua condição de todos os dias, isto é, de homem sem problemas mais altos do que a sua cabeça.”

A vida é uma longa violência.

Neste mundo louco onde todos precisam tanto e tão desesperadamente de deus, onde cada um não se basta por si e se apegam nessa figura insólita e não confiável em detrimento do palpável irmão ao lado. Todos têm medo de se dizer descrentes e serem atingidos por um raio vindo das entranhas de um ser completamente desconhecido, distante, rancoroso, controlador, que nas tragédias não tem culpa de nada porém detém o know how dos milagres.

José Saramago vai e o mundo nunca mais será o mesmo: não tanto por sua morte pois esta era certa desde o dia em que nasceu, mas por sua obra que poderemos, nós e gerações vindouras, ler…e se lendo não entender, leia duas vezes.

Anúncios

2 comentários sobre “Uma sexta feira muito triste.

  1. Outro dia estava lendo Sêneca. O texto, “Sobre a brevidade da vida” é uma conversa, um conjunto de bons conselhos de alguém experiente. Para mim foi uma “conversa” proveitosa, uma tarde de prosa muito agradável. Escritor, quando morre, tem esse “privilégio”. Continua conversando. As vezes, por séculos! Evidentemente, não para seu proveito…
    Assim será com Saramago. Isso se as bibliotecas assim o permitirem. Vc viu a manchete sobre o assunto?

    Quanto a necessidade de Deus, digo: todos VÍRGULA, rsss.

    Essa tendência “inesperada” e realmente surpreendente desse fim/começo de século do fortalecimento da religião e dessa entidade estranha, bizarra e, enfim, irracional, tem a ver com o individualismo exarcebado que nos assola. Se EU sou a coisa mais importante do mundo, e, ao mesmo tempo, sou algo finito, entende-se o caso. Preciso da imortalidade! Desesperadamente!! kkkkk!!!
    Como a ciência parece sequer engatinhar nesse campo, só resta mesmo as alternativas tradicionais para atingí-la. São elas:
    a prole, mas tem que trocar frauda, abrir mão das baladas por um tempo, etc;
    a obra, tipo Saramago. Só que essa é pra quem pode e não pra quem quer, rss;
    e, por fim, em verdadeiro desespero de causa:
    Deus!! Deus e sua promessa – registrada nas escrituras!- de vida eterna. Promessa de várias versões, feita por vários deuses, na verdade.
    Enfim… Como diria Machado, numa outra “conversa” sobre loucura: PLUS ULTRA!!

    Ponto.

    Bjos!!

  2. Edu, é sempre um prazer ouvi-lo. Concordo com tudo. Estou lendo o último livro lançado do Umberto Eco e Jean-Claude Carrière – não contem com o fim do livro – e é muito interessante o que comentam sobre os livros, bibliotecas e que nenhuma mídia vai roubar a cena dos livros, já que afinal as mídias definitivas da modernidade não duram mais que 10 anos…vide os VHS, CD room, etc… nisso está a beleza da obra de um Saramago, um Seneca: Chegam até nós atravéz dos séculos e de uma coisa arcaica mas completamente transformadora que são os livros.
    Beijão e leia muito!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s