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Ontem meu gato morreu, foi atropelado. Saiu alegre do seu muro predileto e não sei por que cruzou a rua…não era de seu feitio. Mas, ele era livre.

Talvez pareça estranho começar o post com essa narrativa, já que aqui tratarei de Ronoel Simões. Mas é que quando perdemos um amigo não nos lembramos dele como uma biografia estática; não nos lembramos de seus feitos mas de sua forma de rir, de andar, suas piadas, manias.

Não tenho porque falar aqui que Ronoel foi o maior colecionador de “coisas” sobre violão do mundo; nem que ele fez isso com recursos próprios e por imenso amor pelo instrumento; nem que ele disponibilizava esse acervo pra todo mundo. Gravações, partituras, fotos, livros…ele já era o Google da época. O conceito de free compartilhamento ele já conhecia e praticava. Mas isso todo mundo sabe dele.

Talvez o que as pessoas não saibam é que ele era macrobiótico. Muitas tardes tomamos café de cevada com leite de soja, pão integral com mel, conversando e contando “causos” e anedotas.

Isso também: ele era um grande piadista. Muito do que ele falava era pura ironia. Fechava os olhos e falava, como se estivesse em transe, madrugadas no Rio procurando coxinhas com Laurindo de Almeida…encontros com violonistas, concertos, saraus e visitas ilustres.

Uma vez, num desses saraus, me coube o violão e resolvi tocar o prelúdio 1 do Villa-Lobos. Bem conhecido, já tocava ele há algum tempo… e lá vou eu. No meio, o nervoso, um monte de gente que faz o mesmo que você e em geral melhor, ouvindo uma peça manjada e sem nenhum toque a mais. Resultado: BRANCO. Enrolei, toquei outra parte, aquilo não acabava nunca, parei de novo, deixei pra lá. Ele, muito educadamente, me falou depois: “Escuta menina, só toque uma peça se souber até o fim. Senão é muito chato!”. Ficou marcada a dica.

Sempre que o convidava, para os mais estranhos recitais que realizei, sempre me assustava com sua presença na primeira fila como que cochilando e ouvindo, como um aviso pra eu seguir até o fim na música.

 

Mas o exemplo mais claro da forma dele brincar com os outros foi a história de um livro. Às vezes ele tinha alguns livros pra vender: coisas repetidas, sobras, específicos demais.

Um dia ele me falou: “Olha, esse livro chegou lá da sua terra, a Hungria. É de um compositor húngaro, Balint Bakfark. Você devia comprar ele.”

minha família húngara (avó, avô, tios) todos da Transilvânia que hoje pertence à Romênia

Essa foto é da minha família húngara.

Peguei, olhei, conhecia o autor e é uma cacetada. Então falei: “Não seu Ronoel, eu nunca vou tocar isso, eu não consigo nem ler!!!”. Ele colocou o livro pra lá e seguimos vendo outras coisas. Logo chegou o Edelton Gloeden que costumava ver e comprar coisas para seu acervo. Olhou uma coisa, outra, viuo livro e ficou louco. “Esse é uma raridade! Vou querer!”.  Pra deixá-lo insatisfeito, falei brincando: “Ah! Esse eu já separei pra mim!.” Vi sua cara de contrariedade…o que essa bostinha vai fazer com esse livro? deve ter pensado. Quando já estava sorrindo e pronta pra dizer que era brincadeira, o Ronoel fez um gesto, olhou pra mim franzindo a testa e arrumando os óculos, piscou e disse: “É verdade, a mocinha veio aqui só pra buscar esse livro.”

Resultado: fiquei com o livro, paguei com meus parcos recursos de estudante e com isso destruí o orçamento daquele mês, consegui tocar duas peças dele (confesso que fizemos um arranjo para dois violões) e tenho ele até hoje.

Depois desse dia, todas as vezes que encontrava o Ronoel ele sempre perguntava: “E o livro? Coitado do rapaz, queria tanto!” e ria muito.

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Outubro de perdas.

Neste mês de outubro tivemos duas grandes perdas: Ronoel Simões, nosso grande amigo, divulgador e colecionador do violão e Henrique Pinto. Para os dois aguardo momento oportuno para escrever algo…no momento, sem palavras…

“Não sei se o leitor é atreito a estas coisas. Por exemplo: vai descansadamente pela rua fora, a olhar para quem passa ou não reparando em ninguém e de repente, ao virar de uma esquina, sem aviso nem prévia suspeita, descobre uma verdade fundamental, uma nova lei da natureza, a explicação final dos destinos, a quadratura do círculo, o moto-continuo. Isto passa-se em um segundo fulgurante, findo o qual volta à sua condição de todos os dias, isto é, de homem sem problemas mais altos do que a sua cabeça.”

A vida é uma longa violência.

Neste mundo louco onde todos precisam tanto e tão desesperadamente de deus, onde cada um não se basta por si e se apegam nessa figura insólita e não confiável em detrimento do palpável irmão ao lado. Todos têm medo de se dizer descrentes e serem atingidos por um raio vindo das entranhas de um ser completamente desconhecido, distante, rancoroso, controlador, que nas tragédias não tem culpa de nada porém detém o know how dos milagres.

José Saramago vai e o mundo nunca mais será o mesmo: não tanto por sua morte pois esta era certa desde o dia em que nasceu, mas por sua obra que poderemos, nós e gerações vindouras, ler…e se lendo não entender, leia duas vezes.

Nós continuamos punidos: somos uma geração sem sonhos, sem perspectivas, sem conquistas. Crescemos cantando os hinos nacionais, com o slogan “äme-o ou deixe-o”. Nossa criatividade secou por anos de violência, saquearam as divisas do país, sofremos material, espiritual e psicologicamente enquanto as agentes desse desmantelamento viveram e vivem muito bem. Não, não pode nem deve ser assim.

A Crise da Cultura

“Não posso pensar sem emoção no momento em que Mozart, tendo acabado de escrever Don Giovanni, pousa a pena e junta suas páginas. É um momento importante da vida da humanidade e, por extensão, de toda realidade. Todos os criadores, músicos, pintores, poetas acrescentaram beleza ao mundo. Enriqueceram nossa vida dando-nos acesso a momentos de felicidade inefável. E, generalizando, penso que todo ser humano, em sua esfera de atividade, pequena ou grande, pode ser um artesão do oitavo dia.”

Quem escreveu isso foi Hubert Reeves, um astrofísico canadense que como eu vê o homem como um demiurgo, um criador por excelência, com necessidade real de criar, de se expressar atravéz da criação.

Porém, atualmente esse legado universal da chamada cultura está com um dilema: quem se interessa por ela?

Meu assunto principal é a música, portanto analizemos: a música sempre foi um dos pilares da nossa cultura, de nossa vida. Compreendê-la fazia parte da cultura geral. Hoje ela se tornou um ornamento que permite preencher noites vazias, organizar festividades públicas ou, quando em casa, com os inúmeros recursos de reprodução de som, espantamos o silêncio criado pela solidão ou falta de assunto. Existe um paradoxo: ouvimos, atualmente, muito mais música que em qualquer outra época – quase que ininterruptamente – mas esta, na prática, não representa nada .

Tudo que antes era importante hoje não significa nada. Hoje damos mais valor a um automóvel que a um instrumento.

Sem nos darmos conta, estamos rejeitando a intensidade da vida em troca da sedução enganosa do conforto – e aquilo que estamos verdadeiramente perdendo, jamais recuperaremos.

Saudosismo? A música passada é melhor que a atual? A música erudita é melhor que o Jazz? O Jazz é melhor que o Rock? O Rock é melhor que o Pop? Eu não gosto de IPod? Não me agrada o youtube?

Não é isso. O que estamos perdendo é nosso poder de analize e entendimento, nosso refinamento. Hoje as pessoas gostam porque custa, porque tem publicidade, porque aparece na TV, porque toca no celular e principalmente, as coisas estão, mas não fazem mais parte de nossa vida.

Muito em breve, todo esse legado, esse trabalho de gerações, esse esforço, essa emoção será uma peça arqueológica, algo que ninguém se interessará pois não temos formação para entender e apreciar. Vivemos o mundo das facilidades, da música em “spray”. Porém nunca foi tão difícil viver…

e veremos todas as obras da criação humana como essa árvore: grande, forte, bela mas morta.

Um novo ano!

Não sabia o que escrever neste começo de ano e olha que sou chegada a mensagens de bom princípio. Então, peguei meu violão e cantei uma canção maravilhosa que acho que exprime bem o momento: Lô Borges e Ronaldo Bastos e sempre a interpretação incrível da Elis. Desculpem a qualidade mas vale a emoção e as biritas que tomei antes. E acima de tudo, um

FELIZ ANO REALMENTE NOVO PRA TODOS NÓS!!!!

Sobre Tai chi chuan

Você conheceu Michel Veber? Se conheceu, vamos escrever uma história juntos. Já escrevi algo, completamente emocional, mas verdadeiro, saiba mais clicando aqui…

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